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sábado, 22 de novembro de 2008

Projeto Continuum: [Aú] Entrevista com Flávio Luiz

Projeto Continuum: [Aú] Entrevista com Flávio Luiz

Olá me chamo Elismar Pinto sou estudante de jornalismo e estou escrevendo um livro reportagem perfil como trabalho de conclusão de curso. O tema é Ícones do cartum na Bahia. E para isso selecionei dois dos grandes mestres do Cartum baiano um deles é Flávio Luiz e o outro é o Nildão ambos dispensam apresentações. Neste trabalho pretendo tornar evidente (ainda mais) os seus respectivos trabalhos, estilo, inspiração, perfil e suscitar uma discursão sobre o humor gráfico na Bahia e o seu poder ideológico.
Gostaria de saber se posso usar a sua entrevista como fonte de citação direta em meu livro? Se a resposta for positiva, por favor me responda o mais breve possível. Desde já agradeço.
elismarpinto@yahoo.com.br
Tel:8836-4564

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Crônica

Ser feliz com o pé na lama

Por Elismar Pinto

São exatamente 11:15 h da manhã de um dia de quarta-feira. O dia está quente, abafado, ensolarado, sem uma nuvem sequer. Para a D. Penha, dia bom para lavar roupa, “Vai secar num instante! Com esse sol”. Falo eu, para a D. Penha. Eu sou Elismar Pinto, tenho 26 anos, e sou vizinha desta simpática senhora há mais de vinte. Moramos na mesma rua do Bairro do Alto de Coutos.

Penha, como é carinhosamente chamada pelos amigos, é dona de casa, às vezes diarista, quando consegue algum bico. Ela é negra, baixinha, gorda e farta de seios, deve ter uns 55 anos, os seus cabelos são duros, grisalhos e vivem soltos e despenteados. Ela é bem pobre, mora em uma casa de lona e madeirite. Tem um marido alcoólatra que há tempos está desempregado. Dos cinco filhos que pariu, um, está preso, deu para o que não presta, os outros foram embora, há muito tempo não se tem notícias. Porém, apesar de tudo, ela se mostra uma pessoa feliz. Sadia e de uma tão feliz disposição de gênio e otimismo, que tudo a leva a rir, mas um sorrir natural, sincero e despreocupado, sorriso de verdade, de felicidade que ela consegue enxergar não se sabe de onde.

E foi cercada de pessoas como a D. Penha, que eu cresci, e convivo até os dias de hoje, gente que sabe sofrer, perder, chorar, viver e quando não tem mais jeito rezar. Algumas aprenderam a morrer, porém outras, de fato sabem o que é viver. Pessoas felizes de verdade, que apesar te todas as dificuldades, e são muitas as dificuldades, conseguem levar a sua vida injusta, com retidão e honestidade.


Não lastimo em ter crescido em um lugar tão humilde, esse fato me ensinou a dar o devido valor às coisas, sobre tudo as pequenas coisas, apesar de ter que pisar na lama todos os dias. Quando me refiro à lama e as dificuldades do local, logo vem uma pessoa para me recriminar, afirmando que existem lugares piores. D Penha, com a sua visão otimista das coisas, é uma delas. Ela diz que dificuldade existia antigamente, quando o bairro não tinha água nem luz, e começa a narrar de maneira muito divertida toda a transformação do local, que para ela, foram enormes progressos.


Moradora antiga do bairro do Alto de Coutos, ela acompanhou de perto toda essa metamorfose, e com alegria brinca dizendo que ajudou a fundar o bairro, que derrubou as árvores e ateou fogo nos capins. Quando ela começa a narrar as transformações do local, me obriga a relembrar a minha infância, pois mudei para o bairro ainda muito pequena, e guardei algumas lembranças, algumas experiências, situações que me marcaram, que me fiseram crescer como ser humano e pessoa.


Essas transformações foram decisivas para o crescimento do local. Crescimento no sentido bem denotativo da palavra, pois o bairro cresceu, porém em muitos aspectos não se desenvolveu.


Antes de ser batizado com o nome de Alto de Coutos, o bairro chamava-se Parque Carvalho. Pois, há aproximadamente trinta anos atrás, todo o território era uma grande fazenda que pertencia à família Carvalho. Com a morte dos donos, essa fazenda foi dividida e aos poucos vendida, e por fim transformou-se em um grande loteamento.


Ao olhar do quintal da minha casa, eu tinha a impressão de estar no meio de uma grande floresta. Tudo o que eu conseguia vislumbrar era coqueiros, gameleiras, trepadeiras, jaqueiras, mangueiras, árvores de muitas espécies, plantas exóticas com verdes de todos os tons. E entre elas, algumas casinhas aqui e acolá cercadas de mato.


Os terrenos eram irregulares cheios de rebentões, desnivelados e recheados de buracos. As ruas, eram caminhos estreitos pareciam trilhas que serpenteavam entre os capins cortantes, grandes e ásperos que cresciam sobre toda a extensão do meu horizonte.


O Progresso

Uma certa manhã chega o “progresso”, em forma de tratores, maquinas gigantes que trabalhavam sem parar. Primeiro cortando o capim, depois tapando os buracos e por fim derrubando as árvores. Aos poucos, as diferentes tonalidades de verde, deu lugar para um enorme espaço vazio, com um chão de terra avermelhada, que a cada dia que passava era ocupada por uma minúscula casinha de taipa, e depois de bloco, e depois de lage, e atualmente há tantas casas, que é até difícil separar uma da outra.


Para uma criança, acompanhar tudo aquilo era uma experiência fantástica. Eu não tinha idéia do que era tudo aquilo, algumas vezes ficava triste porque gostava das árvores e das plantas, mas também me divertia ao ver a aparição de uma nova casinha. A maioria delas era azul e verde, outras rosa e algumas amarelas. D. Penha, brinca dizendo que pobre adora pintar a casa de verde, ela diz que da esperança. E foi essa esperança que segundo ela lhe deu forças para continuar seguindo a sua vida, e passar por tantas privações durante todos esses anos.


Atualmente quando afirmo que o bairro não progrediu, me refiro à estrutura física do local. Apesar de todos esses anos, algumas pessoas ainda sofrem sem água encanada, algumas famílias ainda utilizam água de poços. As ruas não são pavimentadas, exceto a rua principal, e não há coleta diária de lixo. O local é cheio de ladeiras, escadas, ruelas estreitas, umas casas em cima da outra, do lado, embaixo, parece um labirinto que muitas vezes não tem saída. Algumas ruas são sujas, movimentadas, cheias de botecos com homens bebendo e falando palavrões, crianças correndo para lá e para cá, brincando de bola, de gude e fura pé.


No entanto, também há lugares bem diferentes. Com boas casas, comércio, lojas de pequenos empresários, donos de escolas e mercados, pessoas com mais de um automóvel, com TV a cabo e computador. Existe uma grande desigualdade nas adjacências. Se de um lado permanece uma acentuada penúria, do outro há uma iniciativa de um possível progresso.


Lembro-me que na época, o bairro só contava com uma linha de transporte coletivo que era Alto de Coutos x Terminal da França. Esse fato fazia com o que os ônibus andassem superlotados obrigando muita gente a recorrer ao trem. Além de ser mais barato, na época, era mais agradável.


A primeira vez que entrei no trem, tinha seis anos, fiquei tão feliz que nem consegui olhar a paisagens na janela. Mas, alguns passeios depois, comecei a prestar atenção em tudo o que estava a minha volta. Eram pessoas de todos os tipos, cores, tamanhos e estilos. Trabalhadores, estudantes, vendedores de algodão doce, de picolé, de balas e salgadinhos, pastores que diziam pregar a palavra, os ambulantes então, era um espetáculo a parte, com todo o tipo de bagagem possível.


Quando o trem iniciava sua longa trajetória de 13,7 quilômetros em sua marcha lenta e que aos poucos acelerava, proporcionalmente o seu rítimo me embalava. Sempre procurava sentar perto da janela, pois gostava de olhar a paisagem, era quase hipnótica. Nela via vários rostos, tristes, alegres, sem expressões, alguns indecifráveis, pessoas igualmente pobres, das quais eu já conhecia, mais não tinha aquela alegria da qual eu estava acostumada a ver. Com isso comecei a perceber que havia acentuadas diferenças entre as pessoas, entre os lugares, no estilo de vida de uma forma geral.


Porém, o que mais me marcou nessas viagens de trem, foram às palafitas do bairro do Lobato. Se eu ficava impressionada com a aparição de casinhas coloridas, imagine quando vi pela primeira vez uma casa flutuando na água. Fiquei estasiada e ao mesmo tempo horrorizada, era o meu primeiro contato com o diferente. Até então eu não conhecia outra realidade diferente da minha. Ao ver uma criança que era quase um neném, fazendo côco na água, perguntei para a minha mãe se ali não tinha banheiro? Ou um penico? Porquê ele estava nu, e se alguém ia limpar o bumbum dele?


E, ao olhar as palafitas, me perguntava: como foi construída? Como seria morar lá? Será que as pessoas tinham medo de cair? Onde as crianças brincavam? E quando chovia, como as pessoas dormiam? Porquê a maré não conseguia derrubar? Como uma varinha tão fininha sustentava o peso de uma casa com pessoas dentro dela? E todos esses questionamento regidos ao som do trem passando na ponte: “café-com-pão-café-com-pão-café-com-pão”, e de repente a escuridão total do túnel, que me assustava e me fazia sair de todas essas indagações.


A Conclusão

Depois, mais tarde quando comecei a perceber como a vida é cruel e injusta com algumas pessoas, o meu questionamento era: o que leva uma pessoa como a D. Penha que é pobre, feia, e mora na lama, a sorrir e ser feliz? E me surpreendi com a sabedoria de sua resposta, quando lhe fiz essa pergunta. E com base na sua resposta cheguei a essa conclusão:

Muita gente acha que felicidade é ter uma vida livre de dores, problemas, lutos, onde nada de ruim acontece. Que é amar alguém sem defeitos, que é ter dinheiro de sobra, sucesso sem competição, saúde perfeita, amor incondicional, tudo isso em um corpo escultural magrinho e sem celulite. Só que essa felicidade não existe. E correr atrás dela é um desperdício de vida sem paralelo. Aprendi que temos que tentar colocar os inexoráveis problemas em perspectiva, isto é, dar a eles o tamanho real, e começar a ser feliz, com ou sem eles.

O que faz essas pessoas serem felizes e sorrir verdadeiramente é que, eles têm uma visão diferente do que é a vida, tem sensibilidade o suficiente para perceber o que é quase imperceptível , pois não estão acostumados a viver coisas grandiosas. Porque o que traz felicidade, é simples, banal, corriqueiro. Todos têm nacos de pequenas felicidades diárias que formam uma felicidade grande, arredondam a conta.

Felicidade é a volta por cima depois de um baque, é a vitória após um desafio, mesmo que dure apenas um instante. É se olhar no espelho e aprender a gostar do que vê. É ter sensibilidade de saber reconhecer os defeitos inaceitáveis em um parceiro ou amigo ou irmão.


Para mim, é surpreendente e gratificante viver perto de pessoas tão ricas e sabias, são meus visinhos, pisam na lama como eu todos os dias, os cumprimento e converso com eles sempre que o tempo dá. E a cada conversa é uma lição de vida diferente. Apesar de continuar a reclamar quando sujo os meus pés na lama, gosto de ter por perto pessoas com que posso contar e aprender, tenho que admitir, que essa gente a minha gente sabem o sentido da palavra viver em toda o seu amplo conceito.

Reportagem

Religiões de matriz africana criam formas de preservação o meio ambiente ecológico


Por Elismar Pinto e Vilma Neres


Sentada em uma das cadeiras de madeira que cerca a mesa presente na sala receptiva do Terreiro Ilê Axé Oiá, mãe Santinha já aguardava para a entrevista que começaria às 14hs. Perguntei para dona Anízia Rocha da Silva, 81 anos, se poderia iniciar a entrevista ligando o gravador de áudio, ela, mãe Santinha respondeu com sinceridade que não seria possível gravar a sua fala. Porque ao longo da conversa pudessem surgir citações que não dizem respeito aos não adeptos do Candomblé.


“O Candomblé se serve da natureza e as plantas são elementos da natureza utilizados dentro do Candomblé. Portanto, sem a natureza não existe Candomblé”, salientou mãe Santinha. O uso das plantas é hoje manipulado pelas yalorixás dentro dos terreiros de Candomblé. Estas adquiriram esse conhecimento através de seus ancestrais africanos e indígenas. As yalorixás guardam consigo a sabedoria e o manejo das plantas, folhas, raízes, frutos e das árvores para fins medicinais e espirituais. “As folhas são elementos formidáveis dentro do Candomblé. Além de sua utilidade para a saúde espiritual às utilizamos para a cura de doenças física”, disse mãe Santinha.

O amor à natureza e o desejo de que ela seja preservada ou utilizada racionalmente pelas pessoas, podem ser constatados nas primeiras escrituras sagradas. Quase todos eles fazem referência à vida das plantas, dos animais silvestres e dos indivíduos, como elementos integrantes do meio ambiente. Entre as escrituras sagradas podem ser citados os Vedas, a Bíblia e o Corão. Diversos são os textos escritos. Muitos deles, há quase 2.500 anos atrás e já mencionavam uma preocupação acentuada com a conservação da natureza

Além dos princípios de religiosidade, os homens considerados santos, na época, veneravam o ar, a água, a terra (como fonte de vida e alimento) e o fogo (energia). Todos estes, eram considerados como partes integrantes do Cosmos, e sem eles não teria condição de vida. Essa religiosidade procurava demonstrar a inter-relação de todos os seres vivos e dos elementos abióticos que os cercam. Isso se identifica na disciplina que hoje é estudada nas escolas e universidades sob o nome de Ecologia.

Para as religiões de matriz africana os deuses são representados através dos vários elementos da natureza. Segundo mãe Santinha, cada indivíduo possui um Orixá que interfere no curso de sua vida. Sendo assim, cada indivíduo não poderá utilizar qualquer folha sem antes pedir permissão aos Orixás por meio do jogo dos búzios. Além das ervas, como elementos terapêuticos, o Candomblé utiliza outros elementos da natureza destinados à cura.

Sentadas defronte para a mata que cerca o Terreiro Ilê Axé Oiá sentimos a suavidade do ar puro que a Salvador não conhece. Parecíamos estar muito distante do ar empoeirado causado pela queima dos combustíveis de automóveis. O Terreiro fica situado em uma das periferias do Parque São Bartolomeu. Mata verde e pouco freqüentada pelos soteropolitanos. Este é um dos poucos lugares verde que a cidade de Salvador abriga. A sua extensão é acompanhada pelo rio Cobre.

Para mãe Santinha a exploração predatória feita pelo homem, ao provocar desflorestamento, poluição da água, do solo do ar e ao dizimar populações animais, leva a extinção de muitas espécies inclusive das plantas, muitas das quais, servem de matéria prima para cura de diversas doenças. Segundo ela muitas espécies de plantas, sequer foram descobertas. “Estamos destruindo um tesouro que nem sequer conhecemos”. Termina a valorixá.

O culto aos Orixás requer percepção e purificação interior do corpo. Esse asseio é realizado por meio de banhos de folhas e com pedidos de redenção aos orixás. Segundo a farmacêutica e doutora, Mara Zélia, o primitivo dependia fundamentalmente da natureza para sobreviver. Contudo, o saber sobre a utilidade de determinadas plantas foi se perdendo no decorrer das civilizações. Na contemporaneidade o conhecimento das ervas é dos índios, africanos, yalorixás, babalorixás e estudiosos do assunto.

Na perspectiva que trilha os ensinamentos do Candomblé poderíamos ter no amanhã uma sociedade muito mais humanizada e de bem com a natureza. “Aqui no Ilê temos uma horta comunitária, destinada para o bairro de Conjunto Pirajá. Nessa horta plantamos e cultivamos somente plantas medicinais. Há variedades de plantas. A comunidade, sendo uma parcela evangélica, católica e de candomblé vem buscar as folhas quando necessário e sem nenhuma discriminação no que se refere ao candomblé”, declarou mãe Santinha.

Para o candomblé todas as plantas são sagradas. Os seus frutos e as suas sementes, cada uma com as suas propriedades, oferecem ao homem e a mulher nutrientes necessários à vida. “A medicina utiliza a extração das ervas para a produção de remédios e nós, de candomblé, as utilizamos como forma de colhermos a sabedoria destinada a nossa proteção física e espiritual”, complementou mãe Santinha.

No processo de amadurecimento e evolução das idéias e de comportamento, que dizem respeito à natureza, surge a Declaração sobre o Ambiente Humano que foi estabelecida na Conferência de Estocolmo em 1972. Cujas prerrogativas tinham o objetivo de servir de inspiração e orientação à humanidade para a preservação e melhoria do meio ambiente. 20 anos depois, houve a Conferência do Rio de Janeiro, a Rio 92, e mais recentemente pela de Joanesburgo na África do Sul, a Rio +10.


Atualmente o chamado desenvolvimento sustentável é o único capaz de propiciar condições de preservar os recursos naturais e condições de vida saudável para as gerações futuras. Para que isto ocorra, a educação ambiental tem uma importância extraordinária porque conscientiza e altera os padrões de comportamento do ser humano em relação à natureza.

Resenha

Os Miseráveis

SINOPSE
Após cumprir 19 anos de prisão com trabalhos forçados por ter roubado comida, Jean Valjean (Liam Neeson) é acolhido por um gentil bispo (Peter Vaughan), que lhe dá comida e abrigo. Mas havia tanto rancor na sua alma que no meio da noite ele rouba a prataria e agride seu benfeitor, mas quando Va

ljean é preso pela polícia com toda aquela prata ele é levado até o bispo, que confirma a história de lhe ter dado a prataria e ainda pergunta por qual motivo ele esqueceu os castiçais, que devem valer pelo menos doi

s mil francos. Este gesto extremamente nobre do religioso devolve a fé que aquele homem amargurado tinha perdido. Após nove anos ele se torna prefeito e principal empresário em uma pequena cidade, mas sua paz acaba quando Javert (Geoffrey Rush), um guarda da prisão que segue a lei inflexivelmente, tem praticamente certeza de que o prefeito é o ex-prisioneiro que nunca se apresentou para cumprir as exigências do livramento condicional. A penalidade para esta falta é prisão perpétua, mas ele não consegue provar que o prefeito e Jean Valjean são a mesma pessoa. Neste meio tempo uma das empregadas de Valjean (que tem uma filha que é cuidada por terceiros) é despedida, se vê obrigada a se prostituir e é presa. Seu ex-patrão descobre o que acontecera, usa sua autoridade para libertá-la e a acolhe em sua casa, pois ela está muito doente. Sentindo que ela pode morrer ele promete cuidar da filha, mas antes de pegar a criança sent

e-se obrigado a revelar sua identidade para evitar que um prisioneiro, que acreditavam ser ele, não fosse preso no seu lugar. Deste momento em diante Javert volta a perseguí-lo, a mãe da menina morre mas sua filha é resgatada por Valjean, que foge com a menina enquanto é perseguido através dos anos pelo implacável Javert.


FICHA TÉCNICA

Título Original: Les Misérables
Gênero: Drama

Tempo de Duração: 131 minutos
Ano de Lançamento (EUA):
1998
Site Oficial: www.spe.sony.com/movies/lesmiserables
Estúdio: TriStar Pictures / Mandalay Entertainment
Distribuição: Columbia Pictures
Direção: Billie August
Roteiro: Rafael Yglesias, baseado em livro de Victor Hugo
Produção: James Gorman e Sarah Radclyffe
Música: Basil Poledouris
Fotografia: Jörgen Persson
Desenho de Produção: Anna Asp
Direção de Arte: Peter Grant
Figurino: Gabriella Pescucci

Edição: Janus Billeskov Jansen
Efeitos Especiais: The Moving Picture Company

ELENCO

Liam Neeson (Valjean)
Geoffrey Rush (Javert)
Uma Thurman (Fantine)
Claire Danes (Cosette)
Hans Matheson (Marius)
Reine Brynolfsson (Capitão Beauvais)
Peter Vaughan (Bispo)
Christopher Adamson (Bertin)

Tim Barlow (Lafitte)
Timothy Bateson (Banqueiro)
Veronika Bendová (Azelma)


Resenha


Uma Comovente Opção


Por Elismar Pinto


É comovente a trajetória do Jean Valgean (Liam Neeson), personagem principal da obra “Os miseráveis” / EUA 1998. Um

a história emocionante e envolvente, que nos leva ao século XIX, momento de transição histórica para a França, que sofre com conflitos políticos, revolta e manifestações populares. Tudo isso servindo como pano de fundo para uma história fascinante que relata com profundidade a injustiça social, nos faz pensar em nossos valores, conceitos e na triste condição humana de um indivíduo que precisa roubar para comer.


Foram feitas muitas adaptações

desta obra para o cinema, e nos últimos anos, foi um dos musicais de maior sucesso em todo o mundo, mas essa película foi baseada na obra de Vitor Ugo, clássico da literatura francesa.


O filme fascina pela maneira realista que narra os fatos, nos mostra que existem muitas pessoas como o “ex-galé” Jean Valgean (Liam Neeson), como a órfã Cosette(Claire Danes),não talvez com a mesma sorte, como a operária e depois prostituta Fantine (Uma Thurman). Personagens bastante vívidos e presentes em nosso meio e no seio da nossa sociedade, basta sairmos à rua, ler revistas ou assistir aos telejornais e iremos nos defrontar com pessoas que poderia servir de inspiração para uma continuação dessa obra, ou até mesmo protagonizar juntamente com o Liam Neeson essa triste história.

O filme narra a trajetória de um homem, que depois de roubar um pão, é preso e passa grande parte da sua vida na prisão, lá se torna uma pessoa triste, amarga e sem esperança. Depois de cumprir a sua pena tente se inserir novamente na sociedade e é rejeitado, o que o torna ainda mais revoltado. Mais tarde é profundamente transformado, p

or um gesto de desprendimento e generosidade do Bispo da cidade (Peter Vaughan), a partir daí, ele descobre ou redescobre os valores morais, de ética, bondade e amor ao próximo, se tornando um homem bom e generoso, criando em si uma nova consciência, e a sua vida passa a ser um reflexo dessa nova personalidade. È quando conhece Fantine (Uma Thurman), prostituta e sua ex-operária, muito doente, Fantine (Uma Thurman) o faz prometer cu

idar da sua única filha Cosette (Claire Danes), que cresce ao lado de jean Valgean(Liam Neeson), para Cosette(Claire Danes) única figura paterna.


Jean Valgean (Liam Neeson) é incessantemente perseguido por Javet (Geoffrey Rush), inspetor de polícia e uma enorme pedra no seu sapato. Javet(Geoffrey Rush) é uma figura seca, imponente e excessivamente correta, capaz até de prender a própria mãe se esta assim violar uma lei. Para Javet(Geoffrey Rush) é uma questão de honrra prender novamente o fugitivo jean Valgean(Liam Neeson), e torna isso grande motivação para a sua vida.


O filme nada deixa a desejar ao livro, o roteiro “prende” o espectador e o leva até o seu surpreendente e emocionante

final. Dirigido por Billie August de maneira muito inteligente e fiel a obra original, Os miseráveis também se destaca pela sua parte técnica, trabalhou com diferentes figurinos, maquiagem e fotografia quando mostrou a passagem de década de maneira eficiente e eficaz, o que levou o espectador a também viajar pelo tempo, envelhecer com Jean Valgean(Liam Neeson) e crescer com a Cosette(Claire Dan

es).


O roteiro não modificou muito em relação à obra original, o que não levou a grandes surpresas para quem já conhecia a obra por outras adaptações. A trilha sonor

a de Basil Poledouris também não se destaca muito, ao contrário do ator Liam Neeson, que cai como uma luva para o personagem principal, depois de ver a película não consigo imaginar um outro ator para interpretar o papel do protagonista. Uma Thurman também teve uma singular participação, embora breve, mas muito marcante e de profunda importância para o desencadeamento da história.


Contudo o filme é um trabalho digno de elogios e de bons comentários, embora não tenha ganhado nenhum prêmio, levou o público às salas de cinema. A história faz com que nos deparemos com uma inesperada lição de vida e ética, que nos são apresentados em 131 min.

Os miseráveis uma obra fantática e surpreendente que vale a pena ser vista e sentida, não somente para quem deseja absorvê-la e refleti-la, mas também como uma excelente opção de entretenimento, pois um bom filme é sempre e em qualquer ocasião uma ótima diversão.



Principes e Princesas

SINOPSE : B e m -vindos ao teatro de sombras do animador Michel Ocelot. Neste criativo filme de silhuetas animadas, uma menina e um menino encenam fantásticas peças de teatro, auxiliados por um velho técnico desempregado. Eles se transformam em herói e heroína de seis contos e viajam para todos os cantos do mundo, indo do passado remoto ao futuro distante. O filme apresenta um universo de elegantes e encantadoras figuras que deslumbram espectadores de todas as idades, mostrando a beleza do Antigo Egito, a poesia da arte japonesa, o romance da Idade Média e os prodígios do ano 3000.



Príncipes e Princesas, combinação de diversão, leveza e poesia



Por Elismar Pinto


Príncipes e Princesas” um filme que combina diversão, criatividade, beleza, leveza e poesia, tudo sob a batuta do diretor e animador Michel Ocelot. A película estreou com cópias legendadas e dubladas. As cópias dubladas foram interpretadas pelas vozes dos atores Othon Bastos, Ernesto Piccolo e Giulia Gam. São aproximadamente uma hora e doze minutos de diversão, surpresas e puro encantamento, divididos em seis pequenas histórias de 12 minutos cada, que gira em torno dos personagens que foram e são clássicos da literatura mundial e, que dá nome ao título. “Principes e Princesas”, é de 1999, e levou uma década para ser finalizado, sendo que, quatro deles era parte de um trabalho anterior de Ocelot, Cine Si, de 1989. O talento do animador francês Ocelot, foi evidenciado a partir do seu primeiro longa-metragem, o desenho animado “Kiriku e a Feiticeira”. A sua história baseava-se em uma lenda africana, e surpreendeu ao mostrar aspectos da África que, até então, não eram evidenciados. Uma África mais próxima da realidade, fome e miséria, e é onde nasce Kiriku personagem que protagonizou o filme.


Príncipes e Princesas”, começa com a história de uma menina e um menino que encenam peças em um teatro de sombras, assistidos por um velho técnico. Os contornos animados aos poucos vão transformando-se em heróis e heroínas que viajam para diferentes cantos no mundo. Mostram diferentes culturas e apresente um mundo encantador que parte desde um passado remoto do Antigo Egito, passando pela idade média e vai até o futuro distante do ano 3000.


O filme e narra, importantes aspectos do comportamento humano de uma maneira divertida e atraente, que vão dos mais bizarros (o conto O Príncipe e a Princesa), aos mais instigantes (o conto A Bruxa). E, o melhor é descobrir que, mesmo um tema tão comum, como o apresentado por Acelot (Príncipes e princesas), é possível criar, recriar e dar um rumo inusitado a histórias. A exemplo do conto A Bruxa, que quebra o estereótipo do mal e finaliza a história com o príncipe casando com a bruxa, e tornando-a a sua princesa.


Não questiono a criatividade do autor, mas, considerei o conto (O Casaco da Velha), certo exagero, que no final ficou meio sem nexo, é claro que foi divertidíssimo assistir uma “inofensiva” e inocente velhinha, dar uma lição em um espertalhão, e o cenário também estava fantástico, mas daí, a simpática senhora, persuadir um bruta-montes a mante-la todo o tempo nas costas , para mim foi demais! E no final, além de dar um passeio maravilhoso, o dito-cujo, ainda foi presenteado com o casaco, pode!


Todavia, o longa fascina pela maneira poética que narra as histórias, pode tudo, o que a imaginação mandar, pode até um fabulo virar príncipe e casar com a princesa (A Rainha e o Fabulo), pode até uma mulher no ano 3000, esperar por um príncipe!





quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Grande Reportagem

Eros ou Agassi, Amor de Irmãos


1ª Parte

Por Elismar Pinto


Desde o início da década de 90, um fato foi e até hoje é motivo de burburinhos entre os moradores do Alto de Coutos no subúrbio ferroviário. Os habitantes do esquecido bairro comentam o caso que mais afetou a moral e os bons costumes, principalmente das mais puritanas famílias que lá residiam. Comenta-se que uma jovem de 19 anos cometeu suicídio ao descobrirem que ela era amante do próprio irmão.

Como moro lá há mais de 20 anos sempre acreditei que isso fosse mentira, conversa de quem não tem o que fazer ou inventar, só que em minhas andanças, já que trabalho como agente comunitária, e preciso visitar muitas famílias no local acabei-me deparando com o irmão, isso mesmo, o irmão amante. Surpresa foi saber que ele aceitou falar sobre o fato, melhor ainda aceitou que eu escrevesse sobre o acontecido, desde que não revelasse o seu nome e o nome da sua falecida irmã.

Ele é uma pessoa razoavelmente culta, meio melancólica, educada, gentil até, totalmente diferente do que eu, e muitas pessoas imaginávamos. Ele chama-se Luiz, “para você sou apenas Luiz” disse ele. Ele tem 43 anos, é professor de literatura em cursinho, e mora no bairro há mais ou menos 35 anos. Curioso foi ver que ele contava a história em detalhes, conhecia os modos narrativos, queria incentivar-me a escrever daquela forma. Confesso que às vezes ficava constrangida tamanha a sua desfaçatez ao narrar alguns trechos escandalosamente íntimos da história, e que eu não esperava que ele fosse revelar.


Pensei em como narrar essa história, sem que ela perdesse a emoção de sua narrativa, desse modo, decidi fazer minhas, as palavras que ele utilizou para contar-me essa história. Espero com isso causar a todos que a ler a mesma sensação que sentir ao ouvi-la. Raiva, repulsa, revolta, confusão, mas acima de tudo tristeza que logo deu espaço para um vazio, vazio que segundo ele, até hoje o preenche, ao imaginar que ainda poderia ter a sua amada irmã em seus braços.

E ele começou desse jeito: Desde que me lembre de existir, me lembro de amar. Não tenho e nem sinto culpa se o destino a fez nascer minha irmã. Recordo-me até o dia em que ela chegou. Miúda, mirrada e cheia de cuidados como todos os recém-nascidos. Eu me lembro muito bem, apesar de na época ter apenas seis anos. Não sentir raiva, nem inveja, nem ciúme, sentimentos comuns a qualquer criança que vê ameaçado o seu lugar exclusivo de filho único. Ao invés disso, apaixonei-me por ela. Sim, apaixonei-me aos seis anos de idade. Cristina era o nome dela, ou melhor, Tina. Senti o amor crescendo dentro de mim a cada dia em que convivia com ela. Não amor fraterno, amor de amante.

Apesar de minha pouca idade na leitura das pessoas, dos valores inaltecidos e impraticados (porque impraticáveis), dos sentimentos reprimidos de tudo o que não se tolerava e que na época eu já sabia identificar a primeira vista, sempre soube que não podia amar daquele jeito a minha irmã. Mas eu sou como sou não desisto, e nem a impossibilidade das coisas me detém. Portanto, cedo aprendi a ocultar a paixão que nutria por Tina debaixo do véu fraterno, paternalista e sob as brincadeiras normais permitidas entre os irmãos.

Foram muitos os dias, meses, anos, até ver a minha irmã crescida, linda e apetitosamente pronta para mim. Eu muito dissimuladamente me preparei durante todo esse tempo para a consumação desse amor proibido. Tina nem desconfiava do tipo de sentimento que despertava em mim, tanto que tamanha foi a sua surpresa ao ver pela primeira vez a demonstração da minha paixão. “Que brincadeira mais besta é essa Lú”? Disse ela. Mas notou algo de diferente, que com o passar do tempo ela fingia não perceber.

Naquela noite, à noite em que a “toquei” pela primeira vez, Tina dormia profundamente, a boca estava levemente aberta, e o corpo coberto pela metade com um lençol. Não estava nua, usava uma camiseta surrada e uma calcinha branca. A maioria das mulheres têm o péssimo hábito de dormir de calcinha, não sabem que isso faz mal? Já não bastam os dias em que estão de “boi” e que são abrigadas a dormir vestida. Certa vez assistir na TV em um programa qualquer, um especialista afirmar categoricamente que a vagina precisa de oxigenação, “mulheres durmam sem calcinha, dizia ele”. Se Tina o tivesse assistido, possivelmente facilitaria a minha investida.

Não é odioso como a maioria dos escritores tem o péssimo hábito (na minha opinião) de parar na melhor parte da história? Elípse suponho que se chama o tão pérfido ato, o sádico prazer de deixar o gostinho na boca e depois deixar a imaginação de cada um o desenlace da trama. Sendo assim volto a narrar a minha história. Entrei no quanto pela ponta dos pés, fiquei um bom tempo admirando-a, coisa que não podia fazer, nem na frente dela nem na frente do nosso pai. Tertuliano era o nome dele, morreu de derrame quando Tina tinha quinze anos.

Assim, eu, irmão mais velho fiquei por tomar conta dela. Tina era obediente fazia quase tudo que eu pedia, tinha medo de me perder e ficar sozinha no mundo. E eu como um perfeito oportunista tirei proveito da situação. Não me arrependo de nada, o tempo em que ficamos juntos fomos felizes, eu fui feliz e tenho certeza que Tina também foi. Da minha parte não há remorso, e eu achava que da parte dela também não tinha, até ela começar a ir para aquela maldita igreja. Foi aí que o meu mundo desmoronou.

Grande Reportagem

Eros ou Agassi, Amor de Irmãos


2ª Parte

Por Elismar Pinto


Tina tinha problemas de insônia, precisava tomar remédios para dormir, três miligramas de nitrazepan quase todos os dias, de modo que ela não acordou quando eu comecei a acariciá-la. Toquei primeiro os cabelos, eram compridos e cheios, cheiravam a shampoo, depois o rosto, em seguida os seios, a barriga, as coxas, me demorei um pouco nesse sensível local, até perceber que Tina inconscientemente estava reagindo às minhas carícias.


E finalmente toquei o seu sexo, limpo e imaculado, aos dezoito anos a Tina ainda era virgem. Apesar de sonolenta ela reagia de modo muito convidativo ao meu toque, e eu, ansioso, eufórico e repleto de desejo, deleitava-me com as suas reações. Quando percebi que a sua excitação chegava ao extremo, decidir possuí-la de uma vez.

Com um movimento mais brusco Tina acordou, não percebeu de imediato o que estava acontecendo, mas viu que eu estava nu e ela também. Pensei que ela fosse fazer um escândalo, mas não fez. Limitou-se a se cobrir, e a ficar a me olhar de modo estranho.

Com o tempo ela percebeu o tipo de sentimento que nutria por ela. E para minha surpresa ela não se afastou de mim como eu achei que faria. Tina era inteligente, tinha uma mente aberta, desde cedo eu a apresentei ao mundo da literatura, a minha segunda paixão. O primeiro livro que ela leu foi “Xisto no Espaço” da coleção Vaga-Lume. Ela gostava de poesia, música, filmes e seu sonho era estudar filosofia. Tina era diferente de muitas garotas que costumamos encontrar em bairro de subúrbio, ela era culta e não ligava muito para nada, gostava de desafios de quebrar tabus. Talvez isso tivesse contribuído para a aceitação do meu sentimento para com ela.

Numa noite de sexta-feira aconteceu o inevitável, eu a agarrei, ela recusou-se a princípio, mas depois não sei por qual motivo (acho que também me desejava) ela cedeu. No primeiro dia um beijo. Depois um carinho mais intimo. Semanas depois Tina já me aceitava em sua cama. Sem culpa, sem medo, nos amávamos.

Eu vivia para ela, dividia a minha vida, os meus livros, a minha literatura, a minha alma.Tenho certeza que ela também, eu via nos seu olhos, nos seus gestos, na sua voz. Éramos perfeitos um para o outro, nos entendíamos muito bem, éramos companheiros, amigos, amantes, irmãos. Tudo em nós dava certo, gostávamos das mesmas coisas, fomos criados juntos. Éramos plenos, como uma coisa tão bonita pode ser proibido? È essa sociedade hipócrita, prenhe de valores que não cumpre, feliz pela barriga que a todo o momento exibe orgulhosa ,permanecendo, todavia, os valores inascentes.

Até um dia em que ela aceitou um convite para ir à igreja. Adventista do Sétimo Dia foi o nome da nossa desgraça. Tina mudou, não foi de repente, foi aos poucos. O nosso sofrimento foi assim, em doses homeopáticas. Cada dia me tiravam um pedacinho. E no final me tiraram a Tina, não sei bem o que aconteceu, não sei se ela contou sobre nós, mas ela começou a me evitar e ir mais a maldita igreja.

Não queria mais me beijar, não me deixava tocar nela direito. Quando agente fazia amor, sentia culpa no seu prazer, vergonha nas suas feições. Ela não se negava para mim, nem me chamava para ir a igreja com ela, fazia pior, me tratava com indiferença. Eu sentia como se não mais fizesse parte da sua vida, e isso para quem ama é o fim. E foi.

Certo dia chego da faculdade, e encontro a Tina, no quarto, quieta, dormindo. Dormia pesado por causa dos remédios, eu já estava acostumado, mas nessa noite ela estava diferente, imóvel, olhos levemente abertos, e uma baba espessa no canto esquerdo da sua boca.

Aproximei-me, chamei-a pela primeira vez, Tina, Tina acorda, não queria acreditar, ela sempre dormia tão pesado. Na minha agonia levei meia hora sacudindo a minha irmã. Não queria chamar ninguém, e em meu desespero nem queria examiná-la direito.Não queria constatar o óbvio. No reflexo, olhei para o lado e vi a sua cartela de comprimidos vazia.....

“Ana Cristina começou a freqüentar a igreja por que quis, não forcei ninguém a nada, a convidei ela aceitou e pronto”. Disse D. Adelaide Anunciação Souza, de 55 anos, obreira da igreja e vizinha da família. “Sempre achei o comportamento desses dois muito estranho. Como eu sou vizinha de “parede” dá para escutar quase tudo que se passava do outro lado”.

O Alto de Coutos é um bairro razoavelmente grande e igualmente desordenado. Casas amontoadas, ruelas escuras, becos estreitos, uma casa em cima da outra. Um típico bairro pobre e mal estruturado. De modo que não dá para esconder nada de ninguém por muito tempo. E D. Adelaide utilizou essa característica como desculpa para explicar como ela sabia tanto sobre o casal de irmãos.

Grande Reportagem

Eros ou Agassi, Amor de Irmãos


3ª Parte

Por Elismar Pinto


D. Adelaide além se ser obreira é dona de casa. Ela é uma criatura falastrona, de olhos grandes e arregalados, sempre usa saias muito compridas e o cabelo amarrado em um rabo de cavalo bem no alto da cabeça, tem estatura mediana, é magra e aqui na Bahia pode ser chamada de morena. Apesar de ser viúva afirma que ainda tem muito sangue na veia. “Ainda tenho esperança de encontrar uma pessoa para tomar conta d
e mim” Afirmou ela esperançosa. Para minha sorte também não se importou em falar sobre o caso.

“Como as pessoas aqui moram muito próximas, são obrigadas a criar uma estratégia para preservar a sua privacidade”, disse ela. “Eu não devia falar isso para você, mas como você também mora aqui....Quando os casais querem ter intimidade, fazer “aquilo” durante o dia, eles ligam o rádio bem alto, para os visinhos não tomarem parte. Eu já sei identificar os sinais. Se durante o dia fechar as portas e ligar o som alto, já vão pecar”.

Segundo ela, Luiz e Ana Cristina não faziam isso, de modo que dava para ouvir tudo. Continuou ela. “Eram uns gemidos estranhos que no começo eu pensei que era ele que estava levando rapariga para dentro de casa. Fiquei estarrecida quando constatei que não. E tratei de direcioná-la para o caminho da salvação. Da primeira vez ela recusou, mas com a minha insistência ela acabou aceitando.

“Sei que Luiz até hoje tem raiva de mim, já entreguei a alma dele a Deus. Pois um pecado como o que eles estavam praticando só mesmo Deus para perdoar. Não sinto nenhuma culpa, sentiria ser tomasse conhecimento do fato e não fizesse nada, estou com o coração limpo e sei que ela tirou a própria vida por causa da sua culpa e não por causa da minha igreja”.

Dona Adelaide ainda mora na mesma casa, continua vizinha de “parede” e assegurou que se pudesse voltar atrás teria feito a mesma coisa, só que dessa vez ficaria mais perto de Cristina.

“Eu gostava muito de Cristina, se naquela época ela me quisesse, hoje eu estaria casado com ela”. Confessou-me o pedreiro Claudio de Araújo Nascimento de 45 anos. (a cada dez homens no Alto de Coutos oito são pedreiros, inclusive o meu pai) Atualmente ele está casado e é pai de três meninos. “Cristina era a menina mais linda que tinha por aqui”. Afirmou Cláudio, “olhos castanhos, cabelo comprido, pele fina e baixinha, bem do jeito que eu gosto. Agente nunca namorou direito, o irmão dela não deixava de jeito nenhum, era a criatura mais ciumenta que eu já vi. Eu achava que era por que ela não tinha pai, ou por que ela era muito nova (Tinha 16 na época), mas depois que ela morreu fiquei sabendo que era por causa do irmão que queria ela para si”.

A coitada tomou uma caixa de remédio inteira. Maior do que o sentimento da sua perda foi o ódio que eu senti do excomungado do Luiz, dormir com a própria irmã?Aquele lá quando morrer vai direto para o inferno”.

O Pastor da Igreja Adventista do Sétimo dia Josevaldo de Jesus Pereira de 62 anos, não quis aprofundar-se no assunto, limitou-se a dizer que soube do caso por meio de um membro da igreja e fez o seu papel de pastor. “Aconselhei, como aconselharia qualquer fiel que viesse me procurar, sabia que ela era órfã de pai e mãe, só tinha o irmão para tomar conta e não podia colocar um contra o outro. O que eu fiz foi com que ela reavaliasse os seus conceitos de bem e mal, de certo e errado”.

Josevaldo além de pastor é professor de música e na época era estudante de filosofia pela Universidade Federal da Bahia. “Eu acredito que foi isso” Afirmou Luiz. “Tina era fascinada por filosofia e certa vez falou-me sobre ele, que era o cara mais inteligente que ela tinha conhecido na vida. Não gostei muito, até então esse posto era meu, de modo que fui obrigado a ir ao culto só para conhecer a figura. Escondido da Tina, lógico! Ele de fato tinha um discurso muito envolvente, tinha o “dom da palavra”, o seu poder de persuasão era muito forte chegou a impressionar-me. Eu acho que foi isso, impressionou a minha irmã também.

Na teoria psicanalítica freudiana, o desejo incestuoso é tão ou mais antigo quanto a humanidade. Ele aparece muitas vezes na mitologia greco-romana. Como quando Zeus deus do trovão se disfarçou de serpente para seduzir a própria filha Perséfone, ele ainda é casado com sua irmã Hera deusa da fidelidade. Assim também Édipo, que assassinou seu pai Laio e coabitou com a própria mãe, Jocasta. Após descobrir que Jocasta era sua mãe, Édipo furou os próprios olhos e Jocasta suicidou-se. Ainda, no Antigo Testamento Abraão era casado com a sua meia-irmã Sara.

Aceita sem restrições nem juízos morais entre as divindades de inúmeras religiões, a união entre parentes de primeiro grau era admitida também entre vários imperadores, considerados os representantes dos deuses na Terra. A exemplo do imperador Romano Calígulas César que durante muito tempo manteve relacionamento incestuoso com sua irmã Drusila. No Brasil o Regente Diogo Antonio Feijó, por exemplo, vivia maritalmente com sua irmã.

Com o passar dos anos, todavia, o incesto foi proibido entre os povos comuns. O assunto permeia a história humana e já mereceu destaque na literatura, no cinema e no teatro.
No cinema o assunto sempre foi tratado com certo entusiasmo, posso citar grandes obras como o polêmico La Luna, longa de Bernardo Bertolucci, que conta o drama de uma famosa cantora lírica Caterina Silveri (Jill Clayburgh) que descobre que o filho (Matthew Barry) está envolvido com drogas, começando aí um inescrupuloso relacionamento incestuoso entre eles.

Destaque também para o brasileiro Amor, Estranho Amor, de Walter Hugo Khouri, estrelado por Vera Fischer e Xuxa Meneghel, drama erótico em que a prostituta Anna (Vera Fischer) tem relações sexuais com seu filho Hugo (Marcelo Ribeiro) de doze anos.

E agora mais do que nunca o tema volta à baila com a história do austríaco Josef Fritz, de 73 anos, que confessou ter mantido em cativeiro, sua filha Elisabeth durante 24 anos. Josef Fritz admitiu que submetia Elisabeth a repetidos abusos sexuais que resultaram no nascimento de sete crianças.

De acordo com a hematologista Daniela Messias do Hospital das Clínicas o efeito genético da consangüinidade nos genes familiares é muito perigoso e aumenta exponencialmente a possibilidade de manifestação de doenças e mutações.” Os genes ruins tem uma probabilidade bem maior se serem transmitidos aos filhos, por estarem presentes nos dois cônjuges. Algumas doenças genéticas por exemplo, que não seriam normalmente transmitidas por serem recessivas, acabam acontecendo. “Existem muitas doenças relacionadas ao assunto de modo que a proibição do incesto está mais alicerçada na proibição biológica do que em um tabu cultural.

“Incesto termo que veio do latim in castus, ou seja não casto, impuro. Incesto é a relação sexual ou marital entre parentes próximos ou alguma forma de restrição sexual dentro de determinada sociedade”.Essa definição pode ser encontrado em qualquer dicionário, todavia, a sua definição é infinitamente mais ampla.

“A proibição do incesto, representada através dos mitos, religiões e códigos é uma regra universal. A proibição do casamento entre parentes próximos pode ter um campo de aplicação variável, de acordo com a definição de parentesco, mas a proibição ou a limitação das relações sexuais está presente em qualquer grupo.

Desta forma, a proibição do incesto situa-se no limiar entre a natureza e a cultura. Entendemos que, por detrás da necessidade de tamanha proibição, só possa existir um desejo universal equivalente”. “Para que, então, o incesto é proibido? Várias teorias têm sido utilizadas para explicar a finalidade desta proibição”. “Estas podem ser divididas em biológicas, sociais e psicológicas”. Esses pensamentos estão contidos nas idéias de Claudio Cohen e Gisele Joana Gobbetti no artigo O Incesto: O Abuso Sexual Intrafamiliar.

Ainda Cohen e Gobbetti, afirmaram que segundo as teorias psicológicas, “a não atuação do incesto permite a diferenciação e a simbolização de funções dentro da família (pai, mãe e irmãos), possibilitando o desenvolvimento do indivíduo e da família. Nesta perspectiva, a proibição do incesto é um fator organizador, demarcando limites”.

Apesar de condenável na nossa cultura, não fica explícito em nossos Códigos. O Código Civil Brasileiro de (1916), limita o casamento entre parentes próximos até terceiro grau, já o Código Penal (1940) considera o grau de parentesco como agravante dos crimes contra os costumes. Não há uma punição grave para os infratores.Seus filhos são considerados legítimos e não perdem nenhum direito. Em alguns países ou jurisdições, entretanto, este tipo de casamento é proibido por lei, como na Alemanha, em que os casais são presos e os filhos lhes são tirados e encaminhados a uma instituição para menores órfãos, lá o incesto é denominado “Coito Ilegal”.